quinta-feira, abril 12, 2007

A brisk walk

Num bom romance anglo-saxónico, quando uma das personagens tem uma súbita vontade de ir passear, o leitor não vê perante os seus olhos a frase "and then he went for a walk". As personagens dos bons romances, sobretudo as de maior relevo, dão sempre passeios «revigorantes» - "and then he went for a brisk walk". Pode parecer um pormenor, mas na verdade é muito importante que o leitor saiba que o protagonista não é um diletante que se passeia sem motivo aparente. Pelo contrário, se o herói se entrega a uma actividade tão pouco desafiante das suas qualidades pessoais, é porque esse passeio implica, de alguma forma, uma concentração propícia ao ordenamento de ideias e à tomada de decisões importantes. É durante esse passeio aparentemente inútil e frívolo que o investigador policial consegue encaixar a última peça de um denso mistério de intriga e crime, que o gangster de New Jersey se decide pela inevitável eliminação do próprio tio sob pena de perder todo o seu poder, que a mulher de meia idade resolve aceitar a traição do marido antes que ele se lembre de a rejeitar definitivamente, que o desconhecido moribundo se despede dos candeeiros e da luz antes de se atirar de uma ponte para o vazio. Em todos estes casos, o significado de "brisk" traduz um momento de revelação, independentemente de as acções daí resultantes serem benéficas ou contraproducentes para as personagens.

Quando se trata de ter momentos de epifania, ninguém quer pensar no que acontece no fim desse ou de qualquer outro passeio.

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